
Eu vou assim, olhando tudo com ar de menina travessa, como se a Vida fosse uma casa na árvore, bagunçada, só minha, que eu desmonto, e decoro a cada brincadeira.
Eu vou assim, desbravando tudo com ar de justiceira destemida, como se a Vida fosse um cavalo alado imprevisível, puro-sangue, forte e indomesticável.
Eu vou assim, colorindo tudo com ar de monalisa inspirada, como se a Vida fosse um lençol branco gigante, ansiosa pelo arco-íris improvisado de minha aquarela.
Eu vou assim, desenhando tudo com ar de arquiteta famosa, como se a Vida fosse um ombro largo onde falta o toque artístico de uma tatuagem criativa, exclusiva, genial.
Eu vou assim, sobrevoando tudo com ar de borboleta descuidada, como se a Vida fosse uma primavera plena, num bosque encantado onde o céu me protege e nenhum mal existe.
Eu vou assim, flutuando tudo com ar de astronauta veterana, como se a Vida fosse uma lua infinita e brilhante, onde a poesia flui e o amor é leve, vizinha das estrelas.
Eu vou assim, imaginando tudo, com ar de cientista louca, como se a Vida fosse um hospício divertido, cheio de médicos vazios que não entendem minhas invenções insanas.
Eu vou assim, dançando tudo com ar de brasileira morena, como se a Vida fosse uma escola de samba, grande mas nula sem meu frenesi, palco opaco sem meus pés de bailarina.
Eu vou assim, escrevendo tudo com ar de poetisa apaixonada, como se a Vida fosse uma avenida movimentada, com outdoors fosforescentes onde pisca meu amor extremo.
Eu vou assim, cantando tudo com ar de vocalista escandalosa, como se a Vida fosse uma música inédita de refrão viciante, sinfonia perfeita com meus acordes imperfeitos.
Eu vou assim, filmando tudo com ar de cinegrafista premiada, como se a Vida fosse um mundo cheio de hipocrisia e miséria, que eu exponho estarrecida com cada cena.
Eu vou assim, profetizando tudo com ar de sacerdotisa sagrada, como se a Vida fosse um livro aberto num altar divino, lido, interpretado e profanado em cada oração matinal.
Eu vou assim, ironizando tudo com ar de cínica implacável, como se a Vida fosse uma história óbvia que ninguém sabe contar, que eu resumo sorrindo dentro do olho do furacão.
Eu vou assim, fotografando tudo com ar de fã desesperada, como se a Vida fosse um álbum eterno, vazio, mofado, com uns poucos retratos desbotados e paisagens repetidas.
Eu vou assim, hipnotizando tudo com ar de sereia feiticeira, como se a Vida fosse um pescador sedento, à procura de magia, beleza e fantasia na rotina cotidiana.
Eu vou assim, guardando tudo com ar de criança entusiasmada, como se a Vida fosse um baú de brinquedos cheios de cores e figurinhas pra colecionar.
Eu vou assim, acelerando tudo com ar de tigresa faminta, como se a Vida fosse uma paixão mal resolvida, cheia de desejos e saudades, um querer antigo de ser o próprio êxtase.
Eu vou assim, navegando tudo com ar de marinheira sonhadora, como se a Vida fosse um mar misterioso, cheio de monstros horrendos, praias incalculáveis e portos maravilhosos.
Eu vou assim, explicando tudo com ar de velha tagarela, como se a Vida fosse um marido enrugado, que anda trôpego e lento, que já correu tanto e já conheceu o mundo a meu lado.
Sim! É assim que eu vou. Mas não me pergunte pra onde... Meus passos mudam na direção dos ventos, percorrem o caminho de pétalas dos meus amores, procuram os meus tesouros imaculados, e quase sempre fogem - irresistivelmente, deliciosamente- ao meu controle.

